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Quando procurar um cardiologista?

Por Dra. Camilla Leal

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Muitas pessoas associam a consulta com o cardiologista apenas ao aparecimento de uma doença do coração. Mas a cardiologia também tem um papel importante na prevenção: reconhecer fatores de risco, investigar sintomas quando necessário e ajudar a construir estratégias para reduzir a probabilidade de problemas cardiovasculares no futuro. Diretrizes de prevenção recomendam que essa avaliação considere o conjunto de características de cada pessoa, incluindo pressão arterial, colesterol, diabetes, tabagismo, peso, hábitos de vida, histórico familiar e doenças já existentes.

Por isso, não existe uma idade única a partir da qual todas as pessoas obrigatoriamente precisam iniciar acompanhamento periódico com cardiologista. Na prática, a necessidade da avaliação depende mais do perfil de risco, dos sintomas, dos antecedentes pessoais e familiares e dos achados encontrados no acompanhamento de saúde do que de um aniversário específico. Essa interpretação é compatível com diretrizes modernas, que baseiam a prevenção cardiovascular na avaliação individual do risco e na decisão compartilhada entre paciente e profissional de saúde.

Sintomas que merecem avaliação

Dor ou desconforto no peito é um dos sintomas que podem justificar investigação cardiovascular. Falta de ar sem explicação clara, redução da tolerância aos esforços, palpitações recorrentes, sensação de coração acelerado ou irregular, tonturas e episódios de desmaio também podem exigir avaliação clínica, dependendo de sua intensidade, duração, circunstâncias e sintomas associados. Esses sintomas possuem várias causas possíveis e não significam, isoladamente, que exista uma doença cardíaca; a função da avaliação é justamente entender o contexto e decidir quais hipóteses precisam ser investigadas.

A consulta ambulatorial, entretanto, não substitui o atendimento de urgência. Dor ou pressão importante no peito — principalmente quando acompanhada de falta de ar, suor frio, náusea, mal-estar intenso ou dor irradiada para braços, costas, pescoço ou mandíbula — deve ser encarada como potencial emergência. A diretriz brasileira de dor torácica de 2025 é especificamente voltada à avaliação rápida desse quadro em unidades de emergência, e recomendações internacionais igualmente ressaltam que sintomas compatíveis com síndrome coronariana aguda exigem atendimento imediato.

E quando não há sintomas?

A ausência de sintomas não significa necessariamente ausência de risco cardiovascular. Hipertensão e alterações do colesterol, por exemplo, podem permanecer silenciosas por bastante tempo. Por isso, pessoas com pressão elevada ou hipertensão, diabetes, colesterol alterado, tabagismo, obesidade, doença renal, histórico familiar relevante ou combinação de vários fatores podem se beneficiar de uma avaliação preventiva individualizada.

O histórico familiar merece atenção especial, principalmente quando há doença cardiovascular precoce na família. Ele não determina sozinho que uma pessoa terá infarto ou AVC, mas pode modificar a avaliação global do risco e influenciar a necessidade de acompanhamento e de intervenções preventivas. Diretrizes contemporâneas de prevenção e de tratamento das dislipidemias consideram o histórico familiar entre os elementos capazes de modificar a interpretação do risco cardiovascular.

Quem já tem uma doença cardiovascular também precisa de seguimento

Pessoas que já receberam diagnóstico de doença coronariana, insuficiência cardíaca, arritmia, doença valvar ou outra condição cardiovascular geralmente necessitam de acompanhamento definido de acordo com o diagnóstico, os sintomas, os tratamentos em uso e a evolução clínica. O intervalo entre consultas e a necessidade de exames não deve ser presumido de forma igual para todos.

Isso é importante porque acompanhamento não significa necessariamente repetir exames em todas as consultas. Critérios atuais de uso apropriado procuram justamente evitar testes sem indicação e direcionar exames de imagem ou de esforço para situações em que o resultado possa acrescentar informação relevante à avaliação clínica ou modificar uma decisão de cuidado.

A consulta pode começar antes da doença

A prevenção cardiovascular funciona melhor quando o objetivo não é apenas reagir a um problema já estabelecido. Identificar pressão arterial elevada, alterações do colesterol, diabetes, tabagismo, sedentarismo e outros componentes do risco permite discutir mudanças de estilo de vida e, quando necessário, tratamentos específicos antes que ocorra um evento cardiovascular.

Assim, procurar um cardiologista pode fazer sentido tanto diante de um sintoma quanto para esclarecer um perfil de risco já conhecido ou uma alteração observada em outra avaliação médica. O mais importante é que a consulta tenha um objetivo clínico: compreender o risco individual, decidir o que precisa ser investigado e construir um plano de prevenção ou tratamento adequado àquela pessoa.

Se você apresenta fatores de risco, recebeu alguma alteração em exames ou tem dúvidas sobre sintomas relacionados à saúde cardiovascular, uma avaliação individualizada pode ajudar a definir os próximos passos de forma segura e baseada no seu contexto.

Referências

  1. Précoma DB, Oliveira GMM, Simão AF, et al. Atualização da Diretriz de Prevenção Cardiovascular da Sociedade Brasileira de Cardiologia – 2019. Arq Bras Cardiol. 2019;113(4):787–891. doi:10.5935/abc.20190204. Acessar fonte
  2. Gulati M, Levy PD, Mukherjee D, et al. 2021 AHA/ACC/ASE/CHEST/SAEM/SCCT/SCMR Guideline for the Evaluation and Diagnosis of Chest Pain. Circulation. 2021;144(22):e368–e454. doi:10.1161/CIR.0000000000001029. Acessar fonte
  3. Ministério da Saúde. Prevenção secundária — Infarto Agudo do Miocárdio (IAM). Acessar fonte
  4. Ministério da Saúde. Serviço de Atendimento Móvel de Urgência — SAMU 192. Acessar fonte
  5. Errata oficial de 2021 da Atualização da Diretriz de Prevenção Cardiovascular da Sociedade Brasileira de Cardiologia. DOI 10.36660/abc.20210278. Acessar fonte
  6. Diretriz Brasileira de Atendimento à Dor Torácica na Unidade de Emergência — 2025. DOI 10.36660/abc.20250620. Acessar fonte

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